segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Padres “importados” para chegar a todas as paróquias


Em 13 dioceses portuguesas, há 116 padres estrangeiros com responsabilidades paroquiais. De Bragança ao Algarve, sucedem-se as missas celebradas com sotaque da Ucrânia, Brasil, Polónia, Roménia, Angola ou Espanha. Também espalhados pelo território nacional, a Igreja Católica conta 406 diáconos permanentes.
Estes dados constam de uma reportagem de Natália Faria, publicada domingo no Público. Em declarações reproduzidas no texto, o vigário-geral da diocese de Aveiro, padre Manuel Joaquim da Rocha, afirma que “está sempre na altura de a Igreja perceber qual é a melhor resposta que deve dar ao Evangelho” e que, na sua opinião, ela “pode passar pela ordenação de homens casados”, como é o caso dos diáconos, ou, mesmo, pela ordenação ou outras responsabilidades atribuídas às mulheres: “Talvez não possam ser padres, mas por que não dar-lhes acesso a algum degrau dentro da Igreja que lhes permita uma visibilidade mais pública?”
Uma reportagem que acrescenta novos dados ao texto anterior deste blogue e que pode ser lida aqui na íntegra, com um texto complementar aqui.

Mulheres na Igreja Católica: elas não existem só para obedecer (e algumas trapalhadas)






 Picasso, Tête de femme (imagem reproduzida daqui)

A historiadora italiana Lucetta Scaraffia escreve que, em todos os papéis de colaboração das mulheres com a instituição eclesiástica, elas são leigas “e precisamente por isso representam o coração do problema”. Num artigo cuja tradução portuguesa foi publicada na página da Pastoral da Cultura, a consultora de L’Osservatore Romano, jornal da Santa Sé, observa:

Quando se fala de colaboração com os leigos, na vida da Igreja, fala-se sobretudo de mulheres. São elas, com efeito, em grandíssima maioria, a desenvolver tarefas de ajuda e assistência ao clero, dos trabalhos domésticos ao catecismo. E ainda para mais é só como leigas que as mulheres se relacionam com a instituição eclesiástica. Nunca tinha pensado nisso, mas quando, no fim do Sínodo sobre a família, me pediram para tomar lugar na fotografia de recordação com o papa – os leigos no Sínodo –, vi junto a mim as poucas religiosas convidadas. Perante o meu espanto, recordaram-me que elas também são leigas.
As mulheres, portanto, em todo o papel de colaboração com a instituição eclesiástica, são leigas, e precisamente por isso representam o coração do problema. Ou seja, é a relação com elas que define – tirando poucas exceções – a relação entre o clero e os leigos. É precisamente daqui que deriva a fragilidade da sua presença na comunidade católica? Este é um problema que não é desacertado colocar-se: só enfrentando a questão da colaboração com as mulheres, efetivamente, é possível sair do modelo paternalista, e quase sempre sufocante, ainda prevalecente na Igreja.
(a tradução do texto pode ser lida aqui)

Nas suas duas últimas crónicas no Público, frei Bento Domingues também regressou ao tema, com o título As trapalhadas com as mulheres na Igreja. No primeiro deles, escrevia:

Como nem todos os homens querem ser padres, também nem todas as mulheres querem ser ordenadas. O que está em causa é uma outra interrogação: que deficiência haverá nas mulheres para que não possam ser chamadas à ordenação presbiteral ou episcopal para servirem, com a sua sensibilidade, as comunidades cristãs, para as colocar ao serviço da sociedade?
(artigo disponível na íntegra aqui)

No segundo texto, acrescentava:
Em nome de uma disciplina canónica inadequada, estamos a deixar as paróquias, os grupos e os movimentos católicos à deriva. Insiste-se na celebração da Eucaristia como o sacramento dos sacramentos. Com toda a razão. As comunidades de baptizados têm direito a participar na sua celebração. De facto, arranjam-se cenários para as impedirem. O pretexto é sempre o mesmo: não há padres. Se não há, façam-nos. Não faltam candidatos e candidatas preparados, ou que podem ser preparados, com desejo de receberem esse ministério. Mas não nos moldes actuais. O modelo presente já não pode ser o único. Sem imaginação, sem vontade de alimentar e dinamizar as comunidades católicas, as lideranças da Igreja só se podem queixar de si mesmas.
(artigo disponível na íntegra aqui)

domingo, 21 de janeiro de 2018

As Igrejas Orientais e os dois pulmões do Cristianismo universal

Agenda

(Ao lado: Ícone do abraço; ou Cristo e o seu amigo, abade Mena; imagem reproduzida daquionde se pode ler uma explicação do ícone, que data do século VI)

As Igrejas Orientais e os dois pulmões do Cristianismo universal é o tema da conferência de Adel Sidarus, para esta segunda-feira, dia 22 de Janeiro, em Lisboa.
A propósito da semana de oração pela unidade dos cristãos, já aqui referida, o investigador e professor universitário falará sobre uma realidade do cristianismo pouco conhecida em Portugal.
Na síntese proposta para esta conferência, Adel Sidarus sugere: Se, nas sociedades ocidentais, o antagonismo se nota sobretudo entre católicos e protestantes, a nível universal, há ainda toda a diversidade das Igrejas Orientais, radicadas sobretudo no Médio Oriente, na Europa de Leste e nas regiões asiáticas próximas da Europa. A nomenclatura é deveras múltipla e complexa devido a condicionantes etno-geográficas e sócio-políticas, por vezes também dogmáticas. Mais importante ainda é a natureza particular e comum desse conjunto, em contraste com a tradição ocidental: maior fidelidade às origens imediatas do cristianismo; espiritualidade; celebração litúrgica, vida monástica etc.
A conferência decorre na Universidade Lusófona (Campo Grande, Lisboa), a partir das 18h.

sábado, 20 de janeiro de 2018

O coração grande de Nathan, o Sábio

Teatro 


Maria Rueff (Daja) e Luís Vicente (Nathan) num dos momentos da peça
(foto reproduzida daqui)

O encenador Rodrigo Francisco confessa qual é a passagem que prefere em Nathan, o Sábio (em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada e, em Março, no teatro de São João, no Porto), texto escrito em 1779 por Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781): “Na minha passagem favorita deste poema dramático que Nathan o Sábio é, e que acontece no primeiro encontro entre o protagonista e o Cavaleiro Templário, este último lança ao judeu a tirada seguinte: ‘Sabeis, Nathan, qual foi o povo que pela primeira vez se designou como povo eleito? Quando e como surgiu a piedosa loucura de ter o melhor Deus, de o impor ao mundo como o melhor de todos? Esquecei o que vos disse e deixai-me ir embora.’ Resposta de Nathan: ‘Vinde, temos mesmo de ser amigos.’
Nesta citação, Rodrigo Francisco – que confessa depois não ser religioso – lê dois argumentos implícitos: “Àquilo que na época de Lessing (e não só) era palavra corrente no que tocava ao ataque aos judeus por se considerarem um ‘povo eleito’, o autor faz corresponder uma resposta na qual ecoa de algum modo o princípio cristão de ‘oferecer a outra face’. ‘Temos mesmo de ser amigos’: já repararam na importância do provérbio nesta réplica?
No caderno Textos d’Almada (nº 66), dedicado a Nathan o Sábio, Rodrigo Francisco acrescenta a completa pertinência e actualidade do texto de Lessing: ‘Se há cerca de um ano, quando anunciámos que montaríamos este texto, ainda restassem algumas dúvidas quanto à sua pertinência nos dias de hoje, elas ter-se-iam dissipado definitivamente em Julho passado, quando um grupo de pessoas veio exigir que anulássemos um espectáculo de uma companhia de dança israelita no Festival de Almada. Naturalmente, rejeitámos esse acto de censura.”
Nathan, o Sábio, não é apenas a história da sabedoria do protagonista. É também uma bela história de cruzamentos tão improváveis quanto possíveis, tão singulares quanto universais: um judeu que educa uma cristã como filha adoptiva, uma aia cristã que quer reaver para a sua fé a criança ‘perdida’, um sultão (Saladino) que nos deixará a perguntar, a partir do meio da peça, quem terá ele visto no cruzado para além do rosto do seu próprio irmão. E que mistério, pensará também o espectador, estará por detrás da paixão do cruzado Konrad por Recha – paixão que, afinal, terá de se transfigurar em outra coisa.

Uma carta de Braga que já faz polémica nos Estados Unidos

Comentário


Apresentação da carta pastoral Construir a Casa sobre a Rocha 
(foto reproduzida daqui)
 
As orientações da carta pastoral Construir a Casa sobre a Rocha, apresentada na passada quarta-feira pelo arcebispo de Braga (e que aqui foi referida), já foram postas em causa nos Estados Unidos. Numa mensagem na sua página no Tweet, Edward Pentin, escreve que chegam notícias de uma conferência em Roma, a realizar em Abril, acerca das “divisões na Igreja” ao mesmo tempo que uma “arquidiocese portuguesa publica orientações sobre a AL [Amoris Laetitia], cujos críticos dizem ser muito próximas da proposta de [cardeal Walter] Kasper, que foi rejeitada pela maioria dos bispos no Sínodo sobre a Família”.
O cronista do National Catholic Register, uma publicação de orientação conservadora, admite implicitamente que não leu a carta de Braga mas alinha pela tese dos que têm defendido que as propostas do Papa em relação ao acompanhamento de pessoas e casais em dificuldade tendem a criar “divisão” na Igreja. Diga-se que, durante cinco décadas, as mesmas pessoas que agora se preocupam com isso não repararam na divisão surda, mas terrivelmente efectiva, que se deu com o abandono de milhões de pessoas. Para citar apenas um exemplo, foram muitos os que preferiram deixar de se considerar como parte de uma comunidade que   não lhes reconhecia a possibilidade de serem ouvidos no que à contracepção dizia respeito.
Agora, é sintomático que tão rapidamente chegue aos Estados Unidos a notícia do documento de Braga. É facto que, no grupo Actualidade Religiosa (um grupo fechado na rede Facebook), vários comentários também criticaram, nos últimos três dias, a carta pastoral de D. Jorge Ortiga: “É o desnorte total. De um momento para o outro, alteram-se ensinamentos da Igreja que levam séculos de debate e reflexão por parte de concílios, leigos, religiosos e santos”, escrevia António Frazão. “Documento absolutamente desastroso e catastrófico”, acrescentava Bernardo Motta, que, apesar de se manifestar “sem palavras” e sem saber “o que dizer”, ainda descobria o que escrever mais: “isto é chocante. Isto é o descrédito total da doutrina católica. É o total abandono das responsabilidades pastorais de uma Diocese inteira”.
Ora, é precisamente isto que estes argumentos revelam não entender: as “responsabilidades pastorais” remetem para a ideia do pastor. E o bom pastor, como se lê no evangelho, é o que dá a vida pelas suas ovelhas. É aquele que é capaz de deixar as cinco ou dez ovelhas que (ainda) estão no redil e sair à procura daquelas que saíram porta fora ou ficaram à porta ou bateram com a porta ou a quem alguém bateu com a porta na cara. A misericórdia e a situação de cada pessoa são, no evangelho, atitudes centrais. E é a recuperação dessas ideias que a carta pastoral de Braga tenta propor.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Manuel Pedro Cardoso (18 Outubro 1938 – 19 Dezembro 2017): Historiador do protestantismo português




Manuel Pedro Cardoso (foto reproduzida daqui
onde também está disponível um perfil biográfico)

Na apresentação do seu livro Cristãos Inconformistas – História da Igreja Presbiteriana de Lisboa, escrevia Manuel Pedro Cardoso, justificando o título: “A expressão ‘cristãos inconformistas’ devia ser considerada uma redundância, porque ser cristão, seguidor de Jesus Cristo, deveria significar alguém que não se conforma com este mundo, como exorta o apóstolo S. Paulo, que questiona todas as ideologias em nome dos valores do Reino.”
Homem bom e afável, Manuel Pedro Cardoso foi o primeiro historiador do protestantismo português. No texto a seguir, Timóteo Cavaco recorda as várias obras historiográficas e de espiritualidade que Pedro Cardoso deixou, antes de morrer, há precisamente um mês. Tendo em conta o empenhamento de Manuel Pedro Cardoso no diálogo ecuménico, faz todo o sentido evocá-lo no momento em que os cristãos de todo o mundo assinalam a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (de 18 a 25 de Janeiro).

Manuel Pedro Cardoso
(texto de Timóteo Cavaco*)

Nasceu em Lisboa mas acabou por exercer a sua atividade pastoral, para a qual foi habilitado a 14 de junho de 1970, não só na sua cidade de origem, de 1973 a 1979, enquanto pastor da Igreja Presbiteriana de Lisboa, como também em diversas congregações reformadas na zona Centro do país, nomeadamente Figueira da Foz, Bebedouro, Portomar, Alhadas e Granja do Ulmeiro. Por razões de saúde, havia suspendido a sua ação pastoral em 2004.
Pedro Cardoso desempenhou ainda cargos da maior relevância nacional e com impacto internacional, nomeadamente o de secretário-geral do Conselho Português de Igrejas Cristãs de 1984 a 1996. Para além de ser conhecido pela sua personalidade afável e de bom trato, destacou-se entre os da sua geração pelo labor que dedicou à investigação histórica tendo sido o primeiro a empreender uma história completa do protestantismo português, vertida na obra Por Vilas e Cidades: Notas para a história do Protestantismo em Portugal, na sequência de um outro trabalho anteriormente publicado.
Na sua vertente de historiador, Manuel P. Cardoso dedicou-se ainda ao estudo histórico de algumas comunidades locais, de onde resultaram trabalhos publicados, como foi o caso das igrejas presbiterianas de Lisboa – Cem Anos de Vida (reeditado com o título Cristãos Inconformistas), do Bebedouro – O Protestantismo no mundo rural [acerca de cuja experiência ecuménica se pode ler esta reportagem no DN] – e da Figueira da Foz – Um Século na Figueira da Foz.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Braga abre possibilidade de recomeço aos divorciados “recasados”

(foto reproduzida daqui)
 
Braga tornou-se, desde ontem, a primeira diocese portuguesa a regulamentar a possibilidade do acesso de pessoas casadas em segunda união à comunhão eucarística. Uma carta pastoral ao arcebispo, Jorge Ortiga, com o título Construir a Casa sobre a Rocha, e um Documento Orientador da Pastoral Familiar são os dois textos orientadores da nova estratégia pastoral para situações como a referida.
O novo Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio à Família pretende “disponibilizar um acompanhamento integral e multidisciplinar” dos desafios e problemas que as famílias enfrentam, “com seriedade e sempre de forma fiel à doutrina da Igreja”, como afirmou o arcebispo numa conferencia de imprensa de apresentação dos textos, realizada quarta-feira.
Problemas como a violência doméstica, dependências, vida matrimonial e sexual, entre outros, são algumas das questões que o serviço acompanhará, com o contributo de uma equipa constituída por um psicólogo, um psiquiatra e um médico. Já as questões relativas aos divorciados “recasados” ou outras situações irregulares terão o apoio de três padres jesuítas e de uma jurista em Direito Canónico e Civil. Os custos podem não chegar sequer aos dois mil euros, afirmou ainda D. Jorge Ortiga. Mas, no caso dos “processos breves” instituídos pelo Papa Francisco, podem nem ter custo algum.
A nova orientação da diocese de Braga, cuja síntese pode ser lida aqui, surgiu na sequência da exortação apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco. Num comentário publicado entretanto, o presidente do polo de Braga da Universidade Católica Portuguesa, João Duque,  saúda-a como uma “permanente afirmação e confirmação do valor imenso da família e das respectivas relações como núcleo da vida eclesial”. De modo nenhum acrescenta João Duque num texto que pode ser lido aqui na íntegra, o documento (no caso, a carta pastoral) segue “uma leitura facilitista dos compromissos, que são e continuarão a ser compromissos para toda a vida”. O também professor da Faculdade de Teologia defende ainda a importância de se criar um dinamismo “que ajude casais em fase de crise, para eventualmente se evitar a ruptura definitiva”, pois a mediação familiar “terá que ser uma prática corrente, precisamente para conseguir que sejam cada vez menos os casais cristãos que se separam”.
Numa notícia publicada no Jornal de Notícias de quarta-feira, a jornalista Emília Monteiro escreve que mais do que duplicou o número de pedidos de nulidade matrimonial, desde que, há dois anos, o Papa Francisco simplificou o processo. Em 2016, terão sido 200 os processos iniciados de norte a sul do país. Mais do dobro dos registados em 2015. Em 2017, quase no final do ano, somados os pedidos que deram entrada nos tribunais, o número está muito próximo dos 250, adianta a mesma fonte, num texto que pode ser lido aqui.
O mesmo texto adianta que existem já gabinetes de aconselhamento em todas as dioceses portuguesas, embora Braga seja a primeira a criar normas concretas que procuram responder aos apelos deixados pelo Papa na exortação A Alegria do Amor.

O caso de Rosa e de outras mulheres e homens que celebram uma “missa” que não é bem missa




Uma das fotografias reproduzidas na galeria de imagens disponível aqui
(foto Miguel Manso)

No Público de domingo passado, Margarida David Cardoso publicou uma reportagem sobre as celebrações dominicais na ausência de presbítero. Na Igreja Católica, estas celebrações generalizaram-se em Portugal, em dioceses mais dispersas e com problemas de falta de clero, a partir da década de 1980. A realização da celebrações da palavra (em tudo semelhantes à eucaristia, mas sem o gesto da consagração do pão e do vinho) é aqui retratada a partir do que se passa na região de Reguengos de Monsaraz, em que várias celebrações são animadas por mulheres e homens, mais jovens e mais velhos. Como Rosa: 

(...) Rosa, 55 anos, empregada fabril em Évora, ainda tem um “santo tremor” que sobe sempre consigo ao altar. Apesar de já ter dirigido centenas de celebrações dominicais, ao longo das mais de duas décadas que as tem a seu cargo. Começou de forma pontual, quando o padre tinha que ir à terra. Ou Rosa ia ou a igreja fechava. “O Nosso Senhor havia de meter as palavras certas na minha boca”, acreditou.
Se dependesse dela, aquela igreja, que quase parece uma pequena casa, nunca fecharia a porta. É pequena, caiada de branco, com um altar de pedra. Cá fora, emoldurada pelo olival e campos de pasto, cor de folhas e terra molhada.
Dentro, Rosa celebra uma espécie de missa que não é missa. Chama-se celebração da palavra, em substituição da eucaristia, que, diz a Igreja Católica, apenas pode ser feita por um padre. Na sua ausência, os cristãos designados para orientar as cerimónias seguem um guia de celebração. Há leituras, salmos, as mesmas orações, os mesmos cânticos, a comunhão e a oração dos fiéis. Só não há homilia — em sua substituição, os leigos fazem uma interpretação do evangelho – e a consagração das hóstias – estas são consagradas pelo presbítero numa missa anterior.

(a reportagem pode ser lida na íntegra aqui; no mesmo endereço pode ser vista uma galeria de imagens, da autoria de Miguel Manso, que pode ser acedida clicando sobre a fotografia que aparece na página)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Papa Francisco no Chile e Peru: uma viagem difícil mas emocionante





O Papa Francisco à chegada ao Chile (foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco já está no Chile desde ontem para uma viagem que o levará também, entre quinta-feira e Domingo, ao Peru. Uma viagem que o secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, considerou que seria difícil, ao mesmo tempo, emocionante
No ReligionDigital, José Manuel Vidal comentou os temas espinhosos para estes dias de regresso de Bergoglio à América Latina: no Chile, houve protestos violentos contra os custos da visita (cerca de seis milhões de dólares), mas o Papa terá de enfrentar questões como os abusos sexuais cometidos por membros do clero, a situação dos índios mapuches, a perda de credibilidade da Igreja, além do crescimento económico que está a gerar  graves desigualdades e a questão política do acesso da Bolívia ao mar; no Peru, será de novo a questão dos abusos, dos indígenas e, ainda, de uma Igreja cuja liderança está partida em dois, com um sector claramente do lado das reformas desejadas pelo Papa e o outro a querer prosseguir uma linha de conluio com os poderes político e económico; ao mesmo tempo, o país vive dias de agitação política, depois do perdão presidencial ao antigo Presidente Fujimori. (O texto de Vidal, que sugere alguns gestos que o Papa pode protagonizar durante estes dias, pode ser lido, na íntegra, aqui em castelhano.)
No seu primeiro discurso, o Papa referiu-se precisamente à questão dos abusos (dos quais pediu perdão) e à sabedoria dos povos indígenas. Depois, Francisco foi rezar junto do túmulo de Enrique Alvear, que ficou conhecido como “bispo dos pobres” e morreu em 29 de Abril de 1982, com 66 anos - um dos gestos que Vidal escreve, no seu texto, que ele poderia protagonizar.
Precisamente no Peru, onde o Papa chega na quinta-feira, o Vaticano nomeou, na semana passada, um bispo colombiano para liderar uma importante organização católica, que tem alguns dos seus responsáveis acusados de abusos.
Esta viagem surge num contexto em que aumenta claramente a oposição interna ao Papa, no interior da Igreja Católica. Um dos últimos episódios foram as acusações dirigidas ao cardeal Oscar Maradiaga, coordenador do C-9, o grupo de cardeais conselheiros do Papa e um dos homens mais próximos de Francisco. Em causa estariam casos de utilização de fundos indevidos e uma investigação a um bispo auxiliar de Maradiaga – que, no entanto, terá sido ordenada pelo próprio cardeal.
O próprio Papa telefonou ao cardeal, depois de surgidas as notícias, afirmando a sua solidariedade e manifestando a sua dor com o que estaria a ser feito, como Maradiaga contou numa entrevista.
Este é o mesmo Papa que, no entanto, inspira muitas coisas, em muitas pessoas – cristãs ou não-cristãs, crentes ou não-crentes – como escrevia, há duas semanas, Alexandra Lucas Coelho: “Não é pouco que muitos milhões de cristãos no mundo tenham em Francisco a sua referência de carne-e-osso. Não é pouco o que ele inspira em não-cristãos, talvez especialmente não-crentes. Talvez Francisco ainda venha a ser a pessoa que fará da Igreja Católica uma instituição menos injusta, mais à altura do papa que hoje tem. E como nessa nova imaginação sonhada por ele fariam diferença contra-poderes assim à frente de outras crenças. Diferença política, para todos nós.” (O texto integral pode ser lido aqui)

(Uma síntese do que tem sido a oposição declarada ao Papa foi publicada no Guardian e traduzida pelo Público, aqui; um dos capítulos do livro Papa Francisco - A Revolução Imparável, que publiquei com Joaquim Franco, desenvolve também este tema.)


sábado, 13 de janeiro de 2018

Fátima no seu centenário: olhares plurais


Agenda 

O santuário de Fátima em noite de peregrinação 
(foto reproduzida daqui)

Fátima no seu centenário: olhares plurais é o título do colóquio que decorre em Lisboa, na próxima quarta-feira, 17 de Janeiro, entre as 10h e as 18h.
Promovido pelo Policredos – Observatório da Religião no Espaço Público, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e pelo CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), da Universidade Católica Portuguesa, o colóquio abre com uma intervenção de frei Bento Domingues, que procurará responder à pergunta Que fica do centenário da Fátima? Bento Domingues, recorde-se, é autor do livro A Religião dos Portugueses, uma obra fundadora nos estudos contemporâneos sobre Fátima e que será reeditada durante o corrente ano de 2018.
O centenário dos acontecimentos de Fátima, ocorrido em 2017, “associado à canonização dos pastorinhos e à visita do Papa Francisco”, em Maio, “deu origem ou fez reemergir questões que se prendem com a relação entre o Estado e a Igreja, com a chamada ‘identidade religiosa’ dos portugueses, com a sintonia com a mensagem do Papa e com a dissidência face à mesma”, lê-se no texto de apresentação do programa.
“Os media ocuparam um lugar de destaque na cobertura dos acontecimentos, tratando-os com maior ou menor profundidade, maior ou menor literacia, mas sempre como um grande acontecimento mediático. Chegados quase ao fim do arco temporal de comemoração (depois do também simbólico 13 de Outubro), impõe-se fazer uma análise crítica multidisciplinar, na qual se façam ouvir vozes diversas sobre os mesmos acontecimentos”, acrescenta o mesmo texto.
Os temas em debate incluem as reinterpretações de Fátima, no campo das ciências sociais e da teologia; as representações de Fátima a partir dos média, da música, artes plásticas e cinema, e a relação entre literatura e Fátima.
A lista dos intervenientes inclui também Anna Fedele, Teresa Toldy, António Martins, António Marujo, Alfredo Teixeira, Mário Avelar, Leonor Xavier e Teresa Bartolomei. Os debates serão moderados por Teresa Toldy, Tiago P. Marques, Steffen Dix e José Tolentino Mendonça. O colóquio decorre no Centro de Informação Urbana de Lisboa (Picoas Plaza, R. Viriato, 13) e o programa detalhado está disponível aqui.

À procura de Sefarad nas judiarias portuguesas: as 300 marcas de judeus em Trancoso obrigados à conversão

Porta da vila de Trancoso (foto reproduzida daqui)
Em Trancoso, podem encontrar-se 300 marcas em casas que assinalam lugares onde teriam habitado judeus obrigados a converte-se ao cristianismo. Na judiaria de Trancoso, situada dentro das muralhas da pequena vila, viviam artesãos, médicos, colectores de impostos e pessoas com muitas outras actividades – incluindo algumas que chegaram a ser conselheiros de reis, médicos da coroa e altos dignitários da sociedade de então.
Em dia de Shabath judaico, traz-se aqui a referência a um texto (que pode ser lido aqui, em castelhano) de Nora Goldfinger na página de Shavei Israel (uma organização de divulgação e estudo do judaísmo sefardita) acerca das judiarias de Trancoso e da Covilhã.
Entre as marcas referidas por Goldfinger, podem descobrir-se um IHS, acrónimo para Jesus, ou um AM, abreviatura de Ave-Maria, como relatei num reportagem que publiquei em Abril de 2011, no Público, quando a Rota das Judiarias começava a ganhar forma (o texto, que pode ser lido aqui na íntegra, fala também das judiarias de Belmonte, Guarda, Tomar e Castelo de Vide. Entre as marcas que se encontram no “jogo de pista” que se pode jogar em Trancoso, descobrem-se ainda um círculo com um pentagrama – até ao início do século XX, a estrela de Salomão poderia ter sido usada por judeus ou por adeptos da cabala – ou uma cruz grega numa outra porta.
Já na Covilhã, recorda Nora Goldfinger, a cidade teve um importante contributo de judeus, que chegaram ao ponto de colocar a “estrela de David” no brazão covilhanense.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam


Agenda


Vittorio Carpaccio, Santo Agostinho no estúdio, escrevendo as Confissões 
(Scuola di San Giorgio degli Schiavoni, Veneza)
 
Quando a Filosofia e a Literatura se cruzam é o título do curso que se inicia na próxima segunda-feira, 15 de Janeiro, na Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato), em Lisboa.
As sessões, com ritmo semanal, decorrem às segundas-feiras, sempre entre as 18h15 e as 20h, e abordarão autores de séculos passados como Platão, Santo Agostinho, Goethe, Voltaire ou Nietzsche, ou mais recentes como Albert Camus, Clarice Lispector, Milan Kundera, Umberto Eco ou Gonçalo M. Tavares.
Coordenado cientificamente por Maria Luísa Ribeiro Ferreira, o curso conta com as intervenções, entre outros, de Fernanda Henriques, Viriato Soromenho-Marques ou José Tolentino Mendonça.
Outras informações e o calendário dos temas e oradores podem ler-se aqui.
As inscrições encontram-se encerradas mas, à semelhança do que aconteceu com os cursos anteriores, sobre Filosofar é também agir (2017), e Os filósofos também falam de Deus (2016), o áudio das sessões ficará disponível em linha (no caso, as gravações podem ser encontradas nos anos respectivos, na rubrica O curso dos dias, da página da Capela do Rato).